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8 iniciativas urbanas inspiradoras

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Pedalar é como flertar com uma cidade”, escreveu o músico escocês David Byrne em seu livro Diários de Bicicleta, em que conta peripécias vividas com seu meio de transporte favorito. Partilho da paixão dele pelas bikes: não há veículo melhor para explorar lugares – e se deixar seduzir por eles. Em especial, se forem metrópoles que superaram problemas urbanísticos com soluções criativas, como as 12 cidades onde pedalei, por nove meses, durante a pesquisa para o projeto Cidades para Pessoas.

A viagem foi dividida em duas partes. Na primeira, percorri sozinha sete destinos na Europa: Copenhague (Dinamarca), Amsterdã (Holanda), Londres (Inglaterra), Friburgo (Alemanha), Paris, Lyon e Estrasburgo (as três na França). Na segunda etapa, com a artista plástica Juliana Russo, percorri Cidade do México, Barcelona (Espanha) e, nos Estados Unidos, Nova York, San Francisco e Portland. Tudo financiado coletivamente, graças à plataforma brasileira de crowdfunding Catarse. No final, coletamos boas propostas, como as que contamos a seguir.

1. Copenhague
Do Esgoto à Piscina

Basta atravessar as portas de vidro do aeroporto para entender a fama de cidade mais ciclável do mundo: um mar de bicicletas coloridas estacionadas dá as boas-vindas na capital dinamarquesa. Uma das primeiras cidades modernas a nortear seu desenvolvimento econômico com foco nas pessoas, Copenhague transformou avenidas em vias de pedestres já na década de 1950, quando a maioria dos governos construía viadutos para os carros.

Em 1996, a prefeitura colocou em prática um plano para purificar as águas do canal Havnebadet, que circunda a cidade. Na época, ele estava poluído e isolado das pessoas por uma malha industrial. Essas fábricas foram removidas para uma região mais afastada, e os sistemas de esgoto passaram por ampla modernização: ganharam estações de tratamento e foram construídos reservatórios para que, em dias de chuva, o esgoto não se misturasse à água do canal.

Com a saída das indústrias, o rio voltou a ficar visível e as margens se transformaram em áreas de lazer e recreação, ganhando mobiliário urbano como pistas de skate, quadras poliesportivas, ciclovias e campos gramados. o projeto de limpeza da água foi tão efetivo que, em 2005, foi inaugurada a primeira piscina pública de Copenhague, no meio de um canal. E a capital da Dinamarca passou a trilhar um caminho para adquirir uma nova fama: a de melhor grande cidade do mundo para quem gosta de nadar.

2. Londres
Mais opções de Mobilidade

“A boa cidade, do ponto de vista da mobilidade, é a que possui mais opções”, explica o planejador urbano Jeff Risom, do escritório dinamarquês gehl Architects. E Londres está entre os melhores exemplos práticos dessa ideia aplicada às grandes metrópoles.

A capital inglesa adotou o pedágio urbano em 2003, diminuindo o número de automóveis em circulação e gerando uma receita anual que passou a ser reaplicada em melhorias no seu já consolidado sistema de transporte público. Com menos carros e com a redução da velocidade máxima permitida, as ruas tornaram-se mais seguras para que fossem adotadas políticas que priorizassem a bicicleta como meio de transporte. Em 2010, Londres importou o modelo criado em 2005 em Lyon, na França, de bikes públicas de aluguel. Em paralelo, começou a construir uma rede de ciclovias e determinou que as faixas de ônibus fossem compartilhadas com ciclistas, com um programa de educação massiva dos motoristas de coletivos. Percorrer as ruas usando o meio de transporte mais conveniente – e não sempre o mesmo – ajuda a resolver o problema do trânsito e ainda contribui com a saúde e a qualidade de vida das pessoas.

3. Paris
Calor a favor

Praia, samba bem brasileiro e um calor de 40 graus são, por incrível que pareça, receita urbana de sucesso em Paris. A prefeitura entendeu o que precisa ser percebido melhor no Brasil: o clima quente durante o verão pode ser um recurso positivo se for usado a favor da população.

Criar espaços públicos para que as pessoas possam aproveitar o sol é uma iniciativa que entrou na agenda da cidade em 2002, com a criação da Paris Plage (Praia de Paris). o que começou com um pequeno trecho de praia artificial, criada com tanques de areia, foi se espalhando por quase toda a margem do Rio Sena. Atualmente, nessa época do ano, a avenida que circunda o rio é desativada e ocupada por guardasóis, jatos de água, rodas de samba brasileiras, bibliotecas públicas e atividades de recreação para todas as idades.

E no subsolo da Paris Plage ganhou destaque o centro cultural mais curioso da França: o Museu do Esgoto, que percorre as tubulações da cidade para contar a história da despoluição do Sena. Duas medidas simples – saneamento básico e espaços públicos de veraneio – garantiram um cenário de praia e samba nada convencional, saudável e muito bem-sucedido

4. São Francisco
Estacionamento para Humanos

Tomar um café ou uma cerveja na calçada, apreciando o movimento dos pedestres, tem um sabor especial em San Francisco. Principalmente se você estiver em um parklet, prolongamento da calçada que ocupa antigas vagas públicas de estacionamentos de carros, adaptado para receber mesas e cadeiras para clientes de bares, cafés e restaurantes.

A ideia surgiu, como é comum na vanguardista cidade californiana, de um movimento de engajamento cívico. os sócios da empresa de design urbano Rebar se uniram a amigos ativistas para fazer ocupações artísticas dessas vagas públicas para automóveis. No Dia Mundial sem Carro, o vazio onde caberia um veículo passaria a contar com grama sintética, bancos, árvores, mesas, cadeiras, piqueniques e o que mais viesse à mente das pessoas envolvidas. A ideia era provocar a reflexão: “E se esse espaço, em vez de ser ocupado pelos carros, fosse destinado a pessoas?”. o movimento inspirou funcionários da prefeitura a criar o departamento Pavements to Parks, com o intuito de recuperar para a população as áreas dominadas pelos carros. Com a regulamentação da construção de parklets, o poder público passou a emitir autorizações aos comerciantes interessados em construir e montar o seu. A prefeitura, o comércio e os consumidores saem ganhando.

5. Portland
Chuva não é Problema

Ao ler o guia turístico de Portland, já sabíamos o que nos esperava na cidade do estado norte-americano de oregon: uma lista de programas para fazer enquanto está chovendo. No começo dos anos 2000, a estação chuvosa local, que vai de novembro a junho, deixou de ser vista como um problema. Em vez disso, os planejadores e gestores públicos compreenderam que a cidade pedia

soluções de revestimento alternativas ao asfalto – que, impermeabilizado, faz com que a água corra até os rios carregando toda a poluição dos carros. Assim, em 2005 foi adotado o programa grey to green, cujo objetivo era construir infraestrutura ecológica: ruas com concreto permeável, calçadas feitas com pouquíssimo concreto, um tanque de terra – para que a água entre no solo e chegue limpa ao rio – e telhados verdes, que ajudam a filtrar a água e garantem naturalmente o conforto térmico de prédios e casas. Deixar Portland ainda mais encantadora com um rio que fica mais puro a cada ano foi possível com o simples ato de considerar o clima e as peculiaridades locais como recursos, e não problemas.

Outras boas ideias

No processo de melhoria das cidades, projetos não oficiais, que partem da sociedade civil organizada, são tão importantes quanto a gestão pública. Em Nova York, na década de 70, um grupo de ativistas criou o Food Co-op, um mercado que funciona até hoje e onde só associados podem fazer compras. Cada integrante do coletivo trabalha quatro horas por mês, e os alimentos vendidos (por preços baixíssimos) são cuidadosamente escolhidos entre produtos locais, orgânicos e algumas opções industrializadas.

Nesse mesmo esquema de cooperativa, mas com enfoque integral, a Aurea Social foi criada em Barcelona como uma resposta à crise espanhola. Em um espaço cultural, procura-se oferecer de tudo um pouco: saúde pública, moradia, aulas de ioga, horta comunitária etc. É possível pagar com um banco de horas trabalhadas no próprio grupo, fazendo com que todos esses serviços sejam acessíveis a qualquer um disposto a cooperar.

Já na Cidade do México, foi o bom humor que levou o ciclista Jorge Cañez a se vestir com uma máscara de luta livre preta e branca para encarnar, nas ruas, um super-herói chamado Peatónito, que luta pelo respeito aos pedestres no caótico trânsito da capital mexicana.

Como vimos, ao pedalar em meio às boas soluções que existem mundo afora, uma cidade melhor para as pessoas depende basicamente da atitude… das pessoas.

Este artigo foi originalmente publicado no Cidade para Pessoas.