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A classe média cresce nas favelas

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Por Thathiana Gurgel no Viva Favela.

Beatriz, da Maré, ilustra o novo perfil de consumidor nas favelas, com carro, plano de saúde e celular –

O talvez mais famoso personagem da sociedade brasileira recente, a nova classe C, tem como importante local de moradia as favelas do país. Esta constatação faz parte de uma pesquisa divulgada pelo recém-criado Instituto Data Favela que, entre dados diversos sobre os moradores das comunidades, apontou que em 2013, 65% deles pertenciam à classe média. Em 2003, a proporção era de 33%. Segundo o documento, o aumento de renda empoderou os habitantes das favelas, e abriu novas oportunidades de negócio para empresas que hoje olham com atenção para este mercado emergente.

Celso Athayde, criador da Central Única de Favelas (CUFA) e um dos responsáveis pelo Data Favela, esclareceu que o critério da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República para classificação de uma família como classe média é que sua renda mensal esteja na faixa de R$ 1.064 a R$ 4.591. “Mas nós não estamos interessados apenas nesta classe média, queremos beneficiar todos os moradores das favelas através de um desenvolvimento sustentável e abrangente, feito por vias econômicas”, defendeu.

A pesquisa do Data Favela mostrou ainda que as classes baixas diminuíram nas comunidades. A classe D (com renda entre R$768 e R$1.064) e a classe E (com renda menor que R$768) passaram de 65% em 2003 para 32% em 2013. Para Athayde, a redução da pobreza extrema foi impulsionada pelo crescimento econômico do país nos últimos anos, que permitiu o aumento do emprego e do empreendedorismo entre a população.

Poder aquisitivo em alta

Beatriz Soares, de 21 anos, moradora do Complexo da Maré, acredita pertencer a esta classe média, embora os serviços de água, esgoto, luz e gás não serem regularizados em sua casa. “Nunca faltou nada aqui em casa, tudo que eu peço meus pais fazem o maior esforço para me dar”, contou a estudante de Jornalismo da Unisuam. Seus pais têm uma padaria no Complexo, com receita mensal de R$2.500. A renda permitiu que Beatriz estudasse a vida toda em escolas particulares, e hoje faça curso de inglês e teatro no Tablado.

A jovem comprova o aumento do consumo entre as famílias das favelas: ela tem plano de saúde, carro próprio, computador e celular. Além disso, os gastos com vestuário são constantes. “Eu amo comprar roupa, desde alguma coisa de feirinhas até de lojas em shopping, como da marca Afghan, que eu gosto bastante”, conta a estudante, que estagia na ONG Redes da Maré. A pesquisa do Data Favela mostrou que grande parte dos lares nas favelas têm geladeira (99%), máquina de lavar (69%), micro-ondas (55%), TV plasma, led ou LCD (46%), ou ainda freezer (38%).

Faltam estabilidade econômica e serviços básicos

 

O filósofo e professor do Serviço Social da UFRJ Marildo Menegat vê esses dados com menos otimismo, alegando que o crescimento econômico tem prazo de validade para acabar. Segundo ele, a economia brasileira viveu, nos últimos sete anos, um ciclo de crescimento de excesso de crédito, o que leva a um endividamento dos consumidores. Este fenômeno se assimila à formação de uma bolha que está próxima de estourar. “A tendência, assim como na Europa, é de que as pessoas endividadas fiquem desempregadas, pelo corte de gastos das empresas ou por não terem renda fixa, gerando dívidas familiares e financeiras”, afirmou Menegat, apontando para a fragilidade deste empoderamento.

 

Já Celso Athayde constatou que é comum encontrar moradores de favela que, apesar de possuírem renda compatível com a classe C, não se consideram pertencentes à classe média. Segundo ele, isto se deve à falta de infraestrutura crônica em suas comunidades, que não cresceram e não se desenvolveram na mesma velocidade que seus moradores. “Os serviços como transporte, saúde, saneamento e educação ainda são muito ineficientes e comprometem toda a infraestrutura dessas regiões”, afirmou o ativista, lembrando também que a falta de investimentos básicos dificulta a implantação do comércio nestes territórios.

A pesquisa inédita sobre o consumo nas favelas brasileiras ouviu 2 mil pessoas em 63 comunidades do país. Ela trouxe dados surpreendentes, como o que mostra que as favelas no Brasil formariam o 5º maior estado em população no país, com 11,7 milhões de pessoas. Lançada no Hotel Copacabana Palace em 4 de novembro, o estudo foi dirigido por Athayde e Renato Meirelles, presidente do Instituto do Data Popular.

De Viva Favela