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Como transformar o espaço público no Brasil

primavera

Dias atrás, caminhando pela Praça XV no Centro do Rio, passei por um casal gringos sentados em um degrau qualquer próximo ao Paço Imperial discutindo sua rota pela cidade. Ele comia um sanduíche e analisava o mapa marcado com pontos de interesse da cidade enquanto ela foleava um guia da cidade. Eu que estava turistando também buscava um lugar pra sentar e quando vi os estrangeiros calmamente utilizando um degrau aleatório de uma Praça me lembrei de como eu fazia o mesmo quando vivia fora do Brasil.

O exemplo acima levanta algumas questões: porque não ocupamos o espaço público em sua totalidade? Porque nossas praças e parques – salvo raras exceções – vivem vazios? E porque espaços que não são originalmente destinados ao lazer não são tomados pela população que parece preferir sempre lugares fechados? Como eu já vinha observando esse “aspecto cultural” desde que voltei ao Brasil há um ano, decidi fazer algumas reflexões e quem sabe, propor algumas sugestões.

O Rio de Janeiro e a cultura ao ar livre

No Rio, minha cidade-natal, não costumamos nos encontrar na casa de amigos, mas em algum lugar privado de acesso público (leia-se bares) ou em caso de dia ensolarado na praia para quem mora perto. Porém nem todo bairro fica na praia e imensa maioria da população depende de outros espaços de convivência como o bar da esquina ou a pracinha do bairro. Ainda assim, se quisermos experimentar o lazer de outra forma ficamos limitados a um espaço territorial que não foi planejado para ter uma função. Salvo o campinho de futebol é tarefa inglória encontrar uma espaço para corrida ou exercício físico ao ar livre quando se vive nos subúrbios cariocas. Lazer e sol nos fins de semana normalmente significam longas viagens em ônibus lotados até a praia mais cerca.

Dessa maneira, observo que o mito da vida ao ar livre carioca é restrito apenas aos que vivem próximo ao mar e mesmo assim dentro do contexto social que ele proporciona. Aos que vivem longe resta penar da mesma maneira como fazemos nos dias de semana.

Certa vez, caminhando pelo Centro da cidade uma amiga que já havia vivido no exterior sugeriu que sentássemos em algum lugar enquanto conversávamos. Como estávamos no meio da semana sugeri um dos infinitos bares que existem no Centro do Rio. Havíamos saído de uma cafeteria 2 horas antes e ela se mostrou indignada pela falta de lugares para “sentar e conversar” na cidade. Que não podíamos ficar a céu aberto e que as opções existentes dependiam de pagamento e consumo. Armado da minha carapaça bairrista eu defendi a estrutura da cidade com unhas e dentes, com a desculpa de que não era da nossa cultura sentar-nos no chão, escadarias ou praças, que aquilo era mal visto, inseguro e sujo.

Porém minha experiência no exterior (e em outras cidades do Brasil) me mostrou que o discurso cultural esconde um problema maior de falta de pertencimento e apoderamento do espaço público, onde a sociedade não vê aquilo como seu e não considera a tomada do mesmo, relegando o que poderia ser um oásis urbano e um hub cultural a uma peça suja e temida da cidade. Espaços que não são demarcados para o lazer como as praias e ALGUNS parques públicos acabam no ostracismo do vai-e-vem urbano. Mas será que isso não é um fenômeno de qualquer grande cidade?

Os exemplos que vem de fora

Logo ao chegar na Europa, me choquei com ao ver uma esquina dessas comuns e sem-graça abrigando dezenas de pessoas num fim-de-semana de verão. Ao redor havia dois pubs e o local pequeno tinha uma fonte/bebedouro e 2 banquinhos. Só. Ainda assim, por ser o encontro de duas ruas movimentadas a esquina era um ponto de encontro dos moradores e trabalhadores da cidade. Com o passar do tempo notei que era assim em quase todo lugar com degraus, muros ou mais de 2m² de espaço livre. Reuniões de trabalho, almoços, caminhadas vespertinas ou conversas de fim de noite aconteciam nas ruas da cidade.

Com o tempo notei que o fenômeno era comum em diferentes países tanto da Europa Ocidental como oriental e que havia uma conexão maior do cidadão com o espaço urbano. Pude conversar com pessoas de diferentes países do velho continente e todos confirmaram a tese de que suas ruas e praças eram aproveitadas sempre que possível. Como muitos países tem uma média de sol menor do que 100 dias por ano (Londres tem em média 60 dias), fica fácil entender o fenômeno. Qualquer hora livre de sol deve ser aproveitada ao máximo, longe de lugares fechados. Outro fator determinante é segurança que costuma ser muito maior que nas capitais brasileiras onde assaltos a luz do dia são praticados livremente.

Antes de mais nada é bom lembrar que nem todos os lugares são bonitos e seguros na Europa. Minha cidade, Sofia na Bulgária, era relativamente violenta, num país paupérrimo em que faltava policiamento e a população de rua era gigantesca. Ainda assim a presença da comunidade na rua reduzia consideravelmente a sensação de insegurança e obviamente afastava o crime a luz do dia. Outro benefício da apropriação urbana pela população civil.

Se você pensa que por lá era assim por possuir uma excelente infraestrutura para a circulação de pedestres está enganado. A cidade inteira era precariamente equipada, com muitos lugares históricos abandonados, mas ainda assim era costume utilizar qualquer brecha para reunir-se com os amigos. E aqui menciono pessoas de todas as idades, não apenas jovens que no imaginário popular são os únicos com vida social ativa.

O fenômeno cultural que eu citei acima pode ser observado em diversas cidades europeias. Mesmo em cidade sem grandes parques públicos a presença da população é massiva criando um estilo de vida mais saudável e participativo. Certa vez a participei de um piquenique em uma praça que nada mais era do que uma rua larga sem saída. Bastou uma caixa de som e um DJ, no chão mesmo, e a vizinhança se encarregou do resto.

De volta ao Brasil

Para mim que sempre achei o Rio de Janeiro o suprassumo da vida a céu-aberto me senti oprimido e deslocado ao retornar. As ruas já não eram minhas (nem de ninguém) e não havia lugares com exceção da praia onde eu pudesse me refugiar. Aliás não havia nenhuma área de lazer ao redor, uma vez que eu sempre vivi no subúrbio, a milhões de léguas do cartão postal mais próximo e com transporte público deficitário. Quem, no Brasil, vive longe do litoral deve sofrer ainda mais do problema imagino.

Logo que cheguei a São Paulo (onde vivo hoje) morei perto de um grande e bem cuidado parque público que durante 6 meses foi minha academia, pista de corrida, praia, sala de leitura e local para cochilos ocasionais. A qualidade de vida que eu tinha somente por ter o parque como quintal era indescritível e observar todo o movimento, especialmente nos fins de semana me mostraram que a experiência que tive na Europa não era mérito da cultura local, acontecia aqui também. Só que curiosamente o parque citado fechava seus portões as 18h, muito antes que a maior parte da vizinhança pudesse chegar em casa e disfrutar a estrutura tão bem cuidada que ali havia. Para efeitos de comparação o Ibirapuera fica aberto até a meia-noite e se você for lá de noite na semana verá pistas lotadas de pessoas até tarde da noite. Mesmo o “Ibira” – como dizem os nativos – possui o defeito de ser inacessível a pé ou por transporte público, limitado a algumas regiões da cidade. É como se apenas as pessoas do seu entorno pudessem utilizá-lo.

Saindo do escopo dos grandes parques públicos, São Paulo não possui o hábito pedestre de outras cidades que visitei, nem o costume de ocupar as poucas áreas livres, sejam elas projetadas para isso ou não. Na Avenida Paulista há poucos lugares onde as pessoas se reúnem que não sejam restaurantes e bares, sendo a escadaria da Reserva Cultural uma raríssima exceção (e mesmo essa é parcamente utilizada). O máximo que encontrei enquanto pesquisava para este texto eram trabalhadores pingados ao longo do dia em escapadelas ocasionais para um cigarro. E só.

No centro da cidade a coisa piora, já que além da falta de espaço ainda há o problema da violência que assola a região. Apesar da melhora nos últimos anos o centro de São Paulo (onde vivo) é uma área tomada por ladrões, viciados e prostitutas, o que afasta o resto da população das ruas. De quebra o histórico de ocupação urbana dessa área não privilegiou nem um pouco os espaços verdes ou áreas abertas e bairros residenciais gerando um efeito claustrofóbico para quem mora aqui. Toda e qualquer atividade social ou física deve ser feita em lugares privados o que obviamente tem um preço.

Mas Rio e São Paulo não são as únicas cidades brasileiras com esse problema. Dentre as cidades que visitei apenas Porto Alegre mantinha alguma tradição de utilização do espaço público no Parque da Redenção o que ainda é muito pouco. O Centro da cidade possuía uma atividade um pouco maior que outras capitais, dada a característica daquele lugar ser tão diferente dos estados mais ao norte. Conversando com amigos de outros estados ouço que Curitiba (sempre ela) possui uma organização urbana bem diferente e menos radial, com abundância de espaços públicos estruturados e cultura de utilização acentuada. Infelizmente ainda não pude visitar a cidade, mas fica aqui aberto o espaço para os curitibanos que desejarem confirmar ou não essa afirmação.

De quem é a culpa?

A resposta para essa pergunta parece fácil, afinal o poder público deveria ser o maior incentivador de mudança através de um planejamento urbano adequado, investimentos em segurança e infraestrutura e quando este se ausenta o resultado é o esvaziamento urbano. Mas um segundo olhar sobre a maneira como nos relacionamos com nosso espaço mostra que esse é apenas um dos fatores que influenciam a criação de lugares de convivência.

Um dos problemas atuais da maioria das cidades é a sua estrutura “radial”, ou seja, crescem a partir de um centro e vão se expandindo em camadas ao redor do mesmo. Todo o fluxo corre em direção a esse centro e um horário e sai dele conforme o horário comercial se encerra. Os bairros ao redor vão se tornando mais residenciais e a medida em que se afastam a ficam mais longe também das estruturas de transporte, lazer e urbanização. Com isso quem mora mais longe precisa se movimentar muito seja para trabalhar ou para consumir qualquer estrutura de entretenimento. Dependendo da área geográfica isso se torna impossível, culpa de um modelo urbano antigo e que se mostra esgotado.

O governo poderia ajudar bastante criando estações de lazer em cada região, gerando assim uma descentralização que manteria os habitantes de cada bairro próximos as suas áreas de convivência, como já ocorre com os shopping centers que estão espalhados por todos os bairros sem que ninguém precise atravessar a cidade para encontrar os mesmos serviços que podem ser obtidos na vizinhança. Outro quesito importante é a segurança pública presente que estimula a circulação de pessoas o que por conseguinte gera ainda mais segurança.

Porém é inviável pensar que o governo é único responsável pela revitalização de espaços públicos. Infelizmente estamos acostumados a pensar que nosso papel é apenas passivo e mesmo quando decidimos agir, não fazemos muito mais que cobrar uma solução de cima para baixo. Nosso histórico de engajamento comunitário é pautado no modelo de associações de moradores que se comportam exatamente como instituições públicas, não engajam a comunidade e geram uma atitude igualmente parasita em seus moradores: a espera de uma solução vinda de quem detém o poder. A associação por sua vez, quando precisa de algo reclama com o poder público que não quer ou não dá conta de atender a demanda, ou quando decide fazê-lo é com o mínimo diálogo possível gerando um resultado que acaba não agradando a ninguém.

O resumo da ópera é que nenhum dos atores envolvidos exerce o papel que deveria, contribuindo para a perpetuação do problema.

O que é engajamento comunitário de verdade

Vejam o exemplo de Nova Iorque. Em 1999 prefeitura decidiu demolir um viaduto desativado de uma antiga linha férrea. Dois moradores da região decidiram então se organizar e pedir a prefeitura a revisão do plano e que a estrutura fosse reaproveitada como um parque. Após muito planejamento e discussão a organização tornou-se uma ONG parceira da prefeitura e garantiu que a construção saísse do papel. Em 2009 a primeira fase do projeto foi aberta ao público no que hoje é conhecido como High Line Park. Porém a organização Friends of the High Line não se limita apenas a cobrar ou sugerir projetos. Apesar do investimento inicial ter saído dos cofre públicos a ONG é responsável por TODA a manutenção do parque, criação de atividades e captação de recursos para auxiliar na conclusão da obra. Em 2011 a segunda das três partes foi entregue e a terceira está em andamento, assim como a construção da sede da ONG num prédio de quatro andares onde sua cúpula trabalha para manter o parque como uma opção de lazer para toda a cidade.

Todo o dinheiro da ONG vem de doações dos cidadãos de toda a cidade, programas de membresia (apesar do parque ser público e aberto), patrocínio de empresas privadas, aluguel de espaços comerciais, etc. Quase todo o trabalho de manutenção é voluntário e conta com um exército de moradores de todas as regiões para trabalhos de pintura, jardinagem, guia, vigilância e outros serviços prestados. O resultado disso foi uma valorização do espaço imobiliário ao redor do parque e uma participação atuante da comunidade na vida pública da cidade. E o projeto foi exitoso também por contar com a supervisão da organização que desde o princípio teve voz ativa para estabelecer como o parque deveria ser projetado.

Agora comparemos com o exemplo da Praça Roosevelt em São Paulo. Uma área no centro da cidade que se encontrava abandonada e insegura que por fim obteve atenção da prefeitura local. Em 2009 foi lançado um projeto de reforma e revitalização da praça que demoraria dois anos ao custo de R$ 55 milhões. Em setembro de 2012 a praça foi entregue completamente remodelada, com nova iluminação, mas ainda incapaz de servir como área de lazer para a comunidade local. Apesar da boa-vontade pública o projeto criou uma imensa laje de concreto liso com alguns jardins, com a maior parte do espaço sem nenhuma função. Há um pequeno espaço em um canto com brinquedos e uma área gramada para cachorros e só. No centro, foi feito posto da guarda metropolitana o que deixou o local muito mais seguro, mas nem isso é o suficiente para estimular o uso da praça. Faltou aí mobilização da comunidade para expressar as necessidades da população e se agora a prefeitura resolver adaptar o que já foi feito, mais dinheiro terá que ser despejado ali. Dinheiro público diga-se de passagem.

Outro problema do caso Roosevelt foi a criação involuntária da melhor pista de skate da cidade. Os bancos de madeira, escadas e corrimãos formam uma gigantesca pista estilo plaza que não se encontra em nenhum outro lugar. A praça atrai centenas de skatistas de todas as regiões todos os dias tornando a convivência com os moradores que decidem utilizar o local bastante conturbada. Apesar de concordar que a prática do esporte danifica bastante a estrutura, é importante notar que a movimentação de pessoas (combinada com a iluminação eficiente e presença constante da guarda metropolitana) passa uma sensação de segurança muito maior do que se estivesse deserta. Novamente faltou sensibilidade e mobilização para que o projeto fosse melhor executado.

O movimento pela Criação de Espaços

Algum tempo atrás li este curto porém interessante texto que refletia sobre um novo bar em São Paulo. Cito na íntegra abaixo:

Maior desperdício pegar um belo lugar e transformar em restaurante, bar, café, empresa, centro cultural, teatro, galeria… antes de abrir ao público.

Por que não deixar o lugar ser apenas um lugar? É tudo o que as pessoas querem quando vão a cafés e livrarias. A gente quer um lugar, a gente não tá nem aí pra café e livros.

Vai ficar rico o cara que abrir um lugar em São Paulo.

Esse é o ponto quando pensamos em criação de espaços, um lugar apenas, aberto e público. Um lugar somente para sentarmos ou um espaço aberto para realizarmos alguma atividade. De qualquer maneira o lugar do texto acima é um ponto de encontro da comunidade, pode ser uma rua, praça ou parque. Não precisa ser grande, mas normalmente possui alguma utilização que o torna um atrativo, quem sabe o comércio no entorno, equipamentos de ginástica, gramado, bancos ou mesas para piquenique.

Provavelmente sua região já conta com alguma área pública subutilizada que pode ganhar nova vida e se tornar o centro vibrante do bairro. Essa área pode e vai ser reclamada por alguém em algum momento, seja pela especulação imobiliária ou pela apropriação indevida do comércio que pode utilizar o espaço abandonado para sua expansão, matando o potencial do local e reduzindo espaços para o lazer. Mas com o mínimo de organização pode-se reclamar o espaço público e ajudar no desenvolvimento de todo um bairro. Vejamos alguns benefícios dessa atitude.

  •  Melhoria na qualidade de vida e redução de deslocamentos para fins de lazer;
  •  Aumento na segurança com a circulação de pessoas;
  •  Valorização imobiliária;
  •  Estímulo e desenvolvimento sustentável do comércio local;
  •  Promoção do desenvolvimento urbano;
  •  Maior engajamento da comunidade nas questões locais;
  •  Estímulo a educação e conscientização sobre o patrimônio público;
  •  Maior participação na vida política local.

 

Não é necessário muito dinheiro ou uma grande estrutura para tal fim, mas dependendo do caso a mobilização política pode ser importante. Tente inicialmente contatar prefeitura da cidade com uma ideia já pronta do que é necessário naquela região. Fale com os vizinhos e tente reunir um grupo que possa voluntariamente contribuir com trabalho, materiais ou através da arrecadação de fundos de porta-em-porta. Caso queiram fazer algo mais organizado, plataformas de crowdfunding como o Catarse podem acelerar o processo e dar mais visibilidade ao projeto.

Mas para começar é bom definir alguns objetivos e etapas:

  •  Reúna um grupo de pessoas interessadas em criar o projeto e levá-lo adiante. Debatam exaustivamente, sempre com sugestões da comunidade o que deve se feito no local;
  •  Se necessário tente contatar a prefeitura para obter a autorização necessária para fazer alterações no bem público ou promover eventos;
  •  Faça uma estimativa de custos financeiros e recursos humanos necessários ao apresentar o projeto para a comissão da prefeitura. Se tiver um projeto que garanta a manutenção do que será construído posteriormente melhor ainda;
  •  Comece com algo simples: Um churrasco ou feijoada abertos, aulas de ginástica ao ar livre, eventos de recreação infantil, etc. Essas pequenas atividades darão visibilidade a sua iniciativa e podem ser facilmente executadas, além de atrair apoiadores voluntários.
  •  Procure por suporte local. Um restaurante da região pode participar ativamente fornecendo comidas ou uma academia promovendo uma aula ao ar livre. É importante encontrar parceiros nesse primeiro momento.
  •  Tenha uma visão clara do que espera daquele espaço. Como ele será utilizado no futuro e quem será o público? Como eu citei no exemplo da praça Roosevelt, a comunidade é um organismo vivo e o comportamento pode fugir do esperado. Nesse caso adapte seu plano e seja flexível.
  •  Monitore e evolua o projeto. Aumente a capacidade, crie novas atividades, veja o que deu e não deu certo e siga fazendo alterações para que o novo lugar seja cada vez mais agradável e mais abraçado pela comunidade.
  •  Qualquer lugar serve! Óbvio que uns requerem mais infraestrutura que outros, mas não há limitações para um lugar de convivência de qualidade.
  •  Multiuso. Planeje um espaço que tenha múltiplas funções como esportes, refeições, descanso ou espaço para encontros casuais. Quanto mais uso você conseguir para um local, mais sucesso ele terá pois será versátil e sempre estará sendo aproveitado por algum público, além de contemplar as necessidades de pessoas dos mais variados perfis.

Exemplos a serem seguidos

Qualquer um pode se perguntar sé é realmente possível aplicar os conceitos de Criação de Espaços na realidade ou se eles funcionam em todos os lugares. Selecionei alguns exemplos partindo de diversos atores – comunidades, governos e empresas – para mostrar o quanto é possível mudar o ambiente urbano através da criação de espaços bem aproveitados.

 Parque de Madureira, Rio de Janeiro

Certa vez, conversando sobre a necessidade de criação de áreas de lazer e parques públicos no subúrbio do Rio, tão afastado e mal servido de transporte, fui confrontado com a ideia de que um Ibirapuera ou Central Park não funcionariam por aquelas bandas, pois a cultura local não aproveitaria o espaço, que se tornaria abandonado. Pois a prefeitura do Rio, conseguiu demonstrar o contrário com a criação do Parque de Madureira, uma área verde linear, construída paralela à linha do trem e que recebe mais de 60 mil pessoas por semana. Com uma agenda de atividades variada, boa manutenção e acessível por trem e ônibus, o Parque revigorou a Zona Norte da cidade e teve uma gigantesca expansão anunciada. Atualmente se estende por 1,5km junto à linha da supervia e vai ganhar mais 3,8km de extensão. É a prova de que o poder público quando quer faz toda a diferença na revitalização da cidade.

Parque Madureira

High Line Park, Nova Iorque

Já mencionei antes no texto, mas o High Line Park merece todas as honrarias por ser um exemplo magnífico de parceria entre poder público, mobilização civil e engajamento comunitário. Uma vizinhança degradada por um viaduto que conseguiu ser ouvida pela prefeitura e reutilizar a estrutura na construção de um espaço que é referência nos Estados Unidos. Outras cidades já estão se espelhando nesse exemplo para reaproveitar antigos viadutos (alou, Minhocão?) e criar mais espaços de lazer e circulação em grandes centros urbanos.

Mas o que mais impressiona no High Line Park é que tudo mais é custeado pela ONG criada por vizinhos para administrar o parque. As atividades são planejadas, um batalhão de voluntários é reunida todo ano, reduzindo os custos, toda uma linha de produtos com a marca High Line foi criada e várias empresas grandes como Toyota e Google apoiam o projeto.

Ponto de Ônibus em Campinas

Um professor incomodado com a sujeira de um ponto de ônibus da cidade resolveu dar um presente à população. Contratou um pedreiro e reformou o ponto, instalou um mural com jornal e revistas, pia, filtro, copos de plástico e lixeira, além de reformar a calçada e plantar grama ao redor. Não, ele não era usuário do local, apenas não gostava de ver as pessoas que tinham que esperar seu ônibus ali no meio de tanta sujeira. Sem grandes burocracias e com gasto pequeno de dinheiro criou uma experiência urbana digna.

SubCentro Las Condes, Santiago, Chile

Outrora uma galeria abandonada próxima a uma estação de metrô, SubCentro se tornou um movimentado centro comercial com áreas verdes para descanso, cafés e galerias de arte para expositores locais. Dois moradores criaram uma empresa que conseguiu fazer uma parceria com a subprefeitura da região e a companhia de metrô, cada uma dona de uma parte do complexo. Após 5 anos de planejamento que envolveu a comunidade local foi entregue o novo SubCentro, não mais uma passagem infestada de ladrões, mas um espaço para lazer e descanso para quem passa por ali. A organização Urban Development é hoje responsável pela manutenção do local, promovendo o espaço e melhorando-o, além de criar uma agenda de atividades que auxilia o renascimento do lugar.

Praça Benedito Calixto, São Paulo

Não é exatamente uma novidade já que a feira dessa praça existe em 1987, mas como projeto de iniciativa popular, deve ser lembrado como exemplo de sucesso. Aos sábados uma feira de artesanato atrai uma multidão para a praça que ainda conta com apresentação de chorinho e bate-papo com novos autores literários que ali se apresentam. Ao redor da praça, dezenas de restaurantes oferecem opções de comida de todo tipo, além das barraquinhas de comida da própria feira.

Todos os exemplos acima revelam o quanto ainda falta para ser feito pela melhoria nas condições de vida nas cidades e que é responsabilidade de todos os agentes envolvidos fazer com que transformações ocorram. Escapar do modelo centralizado das capitais brasileiras vai depender de uma mudança de pensamento da população e sua relação com o espaço público. Óbvio que grandes projetos necessitam da participação de governos e prefeituras, mas melhorias significativas podem ser obtidas rapidamente com criatividade e participação popular (e com baixos custos).

Especialmente para as áreas menos nobres e comunidades carentes, a falta de espaços de reunião coletiva públicos, violenta ainda mais o cotidiano de quem se vê desassistido pelo planejamento urbano que quase sempre dá prioridade para áreas nobres. Um novo modelo de desenvolvimento com participação ativa da comunidade pode iniciar um renascimento de áreas antes relegadas ao esquecimento, melhorar a autoestima da população e promover uma melhor qualidade de vida.

E agora, quem quer ajudar a criar um lugar?

Foto do título cortesia do usuário Rod Amaru, no Flickr.

  • Isabella Ianelli

    Excelente! Obrigada por um texto tão urgente, Igor!

    • Igor Rodrigues

      De nada Isabella e obrigado. A questão das cidades nunca foi tão debatida, acho que estamos num momento de virada na maneira como encaramos o espaço público. :)

      • lucia

        Igor, eu também gostei muito do seu texto e vou divulgá-lo. Penso ainda que poderiamos levar nossas cadeiras dobraveis para esses espaços e nos reunir para fazer qualquer coisa. Sim, sinto falta de praças aqui em Brasília. Aqui temos gramados extensos e quase não os utilizamos. Ao contrário do que vi em Buenos Aires, onde as pessoas fazem pic-nic neles.

  • http://gustavogitti.com/ Gustavo Gitti

    Igor,

    Perfeito seu texto. Muito, muito bom esse site inteiro aqui, na verdade.

    Sobre a citação, eu depois escrevi um texto sobre isso (saiu na Vida Simples):

    http://olugar.org/um-lugar/

    No lugar estamos pensando em abrir uma página “Lugares onde somos bem-vindos” para listar todos os lugares do Brasil onde as pessoas podem se apropriar (mesmo que sejam lugares privados como o Coffee Lab, mas com uma filosofia diferente que proporciona encontros genuínos). A ideia é criarmos um mapa sutil dos lugares que são também nossa casa.

    Seguimos.

    Abração.

    • Igor Rodrigues

      Opa,

      Muito bom o texto desenvolvendo melhor a ideia Gitti. Acredito bastante nessa filosofia da cidade que promove o contato humano através do design dos espaços públicos. Se somos células da cidade, é só dar algumas condições e as pessoas fazem o resto. Vi bastante disso enquanto morava em Sofia, onde não havia muito entretenimento, mas os parques da cidade, mesmo sem manutenção davam uma vida absurda ao centro. Era tão vivo que certos empresários marcavam reuniões informais em lugares abertos (se a estação permitisse).

      Essa iniciativa d’O Lugar me parece muito boa. Caso queiram colaboração adoraria ajudar.

      Abraço

  • Natalia Vianna

    Ótimo o texto Igor!
    Faço parte de um coletivo de pesquisa e criação em intervenção urbana – o Coletivo Pi.
    Nosso trabalho busca justamente essa apropriação do espaço público, através das diversas linguagens artísticas, na perspectiva de que o que é público pertence a todos – e não a ninguém.
    Gostaria de publicar o seu texto em nosso blog . Vi que muitos textos daque são de licença Creative Commons, mas não sei se o seu também é.
    Obrigada!

    • Igor Rodrigues

      Oi Natália,

      Obrigado e sim, o texto é CC, pode republicar à vontade. :)

      Abs

  • margit

    Maravilhoso seu texto, estou fazendo mestrado em historia e pretendo encontrar novas soluções para nossas praças na historia brasileira com a opinião da comunidade a ser atendida.
    Margit – arquiteta e professora

    • Igor Rodrigues

      Oi Margrit,

      Obrigado pelas palavras. De fato além da questão urbanísticas há também a questão histórica que muitas praças e parques brasileiros guardam e deveriam ser explorados. Sou graduado em Turismo e muitos projetos (engavetados) citam a importância da exposição histórica de lugares de convivência.

  • Bruna

    Na paulista há poucos lugares além da escada do prédio da Gazeta (não é do Reserva)? E o vão livre do Masp, o Parque Trianon, a Praça Oswaldo Cruz no paraíso – usada por skatistas, a Praça do Ciclista? Não são espaços de ocupação pública?
    O texto é bom e a reflexão é válida, mas precisa rever alguns pontos contraditórios.

    • Igor Rodrigues

      Oi Bruna,

      Você está certa, esses espaços existem. Mas ainda assim a ocupação é limitada, em partes por problemas de design. Mas de fato sua observação está certa.

  • jgbayer

    De certa forma, a feira da Praça XV, no centro do Rio de Janeiro, é um bom exemplo, parecido com os citados no texto.